Esgotamento físico e mental em pastores.

02 abr, 2011

Esgotamento físico e mental em pastores – 27/04/2011
Alessandro da Silva

A atual conjuntura tem exigido do pastor, tomadas de decisões que em outras épocas não eram cogitadas. A cada dia fica mais comum em nossas igrejas termos que lidar com assuntos como: eutanásia, tratamento com células tronco, inseminação artificial, aconselhamento de casal com filhos siameses, violência, desigualdade social e outros.

O pastor desse mundo pós- moderno além de lidar com as questões já mencionadas e outras não listadas, ainda tem que desenvolver diversas habilidades. Para poder corresponder com as necessidades do homem moderno, segundo Donald Price em seu livro Conflitos e Questões Polêmicas na Igreja, a sociedade e igreja cobra do pastor que ele tenha: mente erudita, coração de criança e pele de rinoceronte.

Amados sabemos que tais exigências não são possíveis, pois ninguém pode dar conta de tudo o tempo todo. Os desafios da atualidade têm gerado nos pastores desgastes que por sua vez podem ser somatizados trazendo consequências pessoais, familiares, financeiras, e para o reino. Tenho observado que existe um crescente número de pastores que vem desenvolvendo problemas de saúde devido o desgaste como cuidador ou demonstram a síndrome de Burnout ( descoberta na década de 70).

Burnout é uma expressão inglesa (“to burn out” que significa queimar por completo). É um distúrbio psíquico de caráter depressivo, caracterizado pelo esgotamento físico e mental. O esgotamento está relacionado com o estresse causado pelo “trabalho como cuidador”.

O ofício pastoral nada mais é que cuidar (espiritualmente, fisicamente etc.), segundo Champlim a palavra pastor vem do hebraico que significa cuidar dos rebanhos. O portador da síndrome de Burnout se destaca pela dedicação exagerada à atividade que exerce, no nosso caso o pastorado. O desejo de ser sempre melhor, ter altos desempenhos, o desejo de valorização pessoal faz com que a vida de cuidador (pastor) se torne uma obstinação e compulsão, levando a um desgaste emocional e físico.

Fisiopatologia do estresse: Em condições de estresse crônico, várias substâncias como cortisol e outros são lançados na corrente sanguínea, causando desequilíbrio. A maioria dos óbitos é causada por doenças no sistema cardiovascular e um dos fatores é o estresse.

Alguns sintomas dessa síndrome são:

Sintomas psicossomáticos: enxaqueca, dores musculares ou cervicais, gastrite, úlcera, diarréias, palpitações, hipertensão, suspensão do ciclo menstrual (na mulher), impotência (nos homens), baixo libido tanto nas mulheres quanto nos homens.

Sintomas comportamentais: violência, drogadição medicamentosa, incapacidade de relaxar, mudanças abruptas de humor.

Comportamento de risco (suicídio: conversas que dizem que a vida não vale à pena e questionam: porque Judas não foi salvo? Tal conversa tem como alvo defender o suicídio).

Sintomas emocionais: alto nível de impaciência, distanciamento afetivo como forma de proteção do ego, freqüentes conflitos interpessoais, sentimentos de solidão, irritabilidade, ansiedade, baixa tolerância a frustração, dificuldade de concentração, impotência, declínio no desempenho profissional (pastorado), apatia e negação.

Essa síndrome geralmente é desenvolvida em pessoas que tiveram alto grau de esforço físico ou mental e tiveram ou não pequenos intervalos de descanso para se recuperarem fisicamente.

O que fazer?

Precisamos mudar nossa cultura, pois se não cuidarmos de nós mesmos como teremos condições de cuidar do próximo,… “Ame o próximo como a ti mesmo.” – Marcos 12:31.

Muitas vezes dizemos para os membros da igreja buscar ajuda de um profissional e nos mesmos ignoramos isso. Os pensamentos geram os comportamentos, por isso que é de suma importância mudar tais fatores psíquicos e enxergar que não precisamos ser sempre 100%. Existe uma máxima em saúde mental: atrás de todo excesso se esconde uma doença. No nosso caso, pastores, muitas vezes nos esquecemos que o próprio Deus teve seu momento de descanso, ele é o promotor dessa idéia, o descanso é fundamental para renovar nossas energias e nos deixa abertos para novas idéias e inovações. Com as energias renovadas ficamos mais dinâmicos. Viver sem estresse é impossível, mas podemos minimizá-lo de algumas formas:

1) Tirar férias quando possível: O hábito de recarga das energias é importante para todos os seres vivos, mas algumas vezes deixamos de lado e alguns ficam vários anos sem investir em si através de alguns dias de férias. E outros, ainda quando o fazem querem levar membros na sua viagem de férias. Essa atitude por mais nobre que seja tira a privacidade da família pastoral.

2) Investir algum tempo à atividades que lhe proporcionem prazer: Muitas vezes parece quase pecado falar na igreja que temos um Hobby, pois falar de algo que nos dá prazer além de ir à igreja e ler a palavra “ainda” é um tabu. Não podemos esquecer que o ministro e sua família precisam de algum tempo de lazer. Pois esse tempo produzirá descanso mental e uma renovação mental espiritual.

3) Evitar sedentarismo. O sedentarismo tem sido a causa de doenças como: obesidade, diabetes, problemas cardiovascular, entre outros. A atividade física proporciona ao organismo uma ativação de substâncias que estimulam a circulação sanguínea, causando bem estar físico e mental.

4) Evitar um ministério pautado na produção quantitativa: Somos frutos de uma sociedade competidora, ávida pelo sucesso e muitas vezes entramos nesta correria em busca de produção. Não podemos esquecer que a obra não é nossa e sim de Deus, e no demais nem sempre podemos ter como crescimento somente números, existem outros crescimentos além do quantitativo. Queremos produzir para o reino e não viver uma vida de apenas ativismo “sacrificando” a nós mesmo, família e igreja.

Que Deus nos ajude a fazer uma bela obra para ele, e se possível com o mínimo de estresse.

Alessandro da Silva – Graduado em Teologia em 2000 e em Enfermagem pela Universidade Anhembi Morumbi – Núcleo Hospital das Clinicas. Possui especialização pelo Instituto de Treinamento para missões transculturais e em aconselhamento pelo Corpo de Psicólogos e Psiquiatras. Também possui cursos de extensão em Psiquiatria do Hospital das Clinicas, em combate ao uso Indevido de Drogas pela Denarc e em Suporte Básico de Vida e Avançado de Vida pela American Heart Association. Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana Renovada de Barueri, em São Paulo e atualmente é graduando em Ciências Biológicas pela Universidade de Santos.

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site http://www.institutojetro.com/ e comunicada sua utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com

About the author

Related Posts